Flock safety: empresa de us$ 7,5 bilhões vira alvo de protestos contra vigilância nos EUA

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Flock safety: empresa de us$ 7,5 bilhões vira alvo de protestos contra vigilância nos EUA

Rede de 120 mil câmeras com leitura de placas em 49 estados americanos provoca derrubadas de equipamentos, investigação no Congresso e reação bipartidária nas eleições de 2026. No Brasil, o Muralha Paulista segue lógica semelhante.

A Flock Safety, empresa de Atlanta avaliada em US$ 7,5 bilhões, tornou-se o centro de uma disputa pública sobre vigilância nos Estados Unidos: suas mais de 120 mil câmeras de leitura automática de placas, espalhadas por 49 estados e 6 mil cidades, passaram a ser alvo de protestos, vandalismo e investigações oficiais em 2026. Amazon Web Services (aws.amazon.com)

Segundo a companhia, a tecnologia apoiou mais de 1 milhão de investigações policiais em 2025, incluindo a localização de quase 10 mil pessoas desaparecidas.

Moradores de cidades como Boston, San Diego e várias localidades do interior de Nova York têm derrubado e destruído fisicamente os equipamentos. A reação ultrapassou a rua: chegou às audiências do Congresso, aos governos estaduais e às campanhas das eleições de meio de mandato de 2026, de acordo com levantamento do Axios.

O que é a flock safety e como suas câmeras funcionam?

A Flock Safety opera um sistema de ALPR (leitura automática de placas, na sigla em inglês) baseado em inteligência artificial. Cada câmera captura entre seis e 12 fotos de cada veículo que passa, identificando placa, marca, modelo, cor e até detalhes como adesivos e arranhões, tudo em poucos segundos e sem intervenção humana.

Os equipamentos são contratados por departamentos de polícia, associações de moradores e empresas privadas. Esse modelo híbrido de clientela é parte do que torna a rede tão abrangente: a infraestrutura de vigilância cresce tanto por decisão governamental quanto por iniciativa privada.

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Quem está por trás da infraestrutura que sustenta esse volume de dados? A resposta está na nuvem: toda a captura de imagem é processada e armazenada pela Amazon Web Services, parceira oficial da Flock Safety.

AWS govcloud concentra os dados sensíveis

Segundo a documentação técnica da própria Flock Safety, dados ligados a agências governamentais e de segurança pública ficam hospedados no AWS GovCloud, ambiente de nuvem separado e mais restrito, com data centers físicos na Virgínia, em Oregon e em Ohio, acessível apenas a agências de aplicação da lei.

Investigações jornalísticas, como a do site Dissent in Bloom, apontam que essa escolha arquitetural não é um detalhe técnico: integrar dados de vigilância civil à mesma infraestrutura de nuvem usada por agências de inteligência americanas seria uma decisão deliberada. A discussão dialoga diretamente com o debate sobre soberania de dados em nuvem.

Info: 120 mil câmeras em 49 estados, presença em mais de 6 mil cidades e mais de 1 milhão de investigações apoiadas em 2025, segundo dados da própria Flock Safety compilados pela Exame.

Por que as câmeras da flock viraram tema central das eleições americanas?

Segundo o Axios, as câmeras da Flock Safety se juntaram aos data centers como os dois principais alvos da retórica anti-IA nas eleições de meio de mandato de 2026 nos Estados Unidos. Parlamentares e candidatos ao Congresso passaram a capitalizar politicamente sobre a onda de indignação popular contra a ferramenta.

O democrata Abdul El-Sayed, candidato ao Senado por Michigan, publicou vídeo associando seu adversário republicano, o ex-deputado Mike Rogers, às câmeras da Flock, usando a música "Somebody's Watching Me" como trilha sonora. Outros candidatos democratas, como Chaz Molder, no Tennessee, e William Lawrence, também em Michigan, adotaram discurso semelhante contra a "invasão do governo".

"A Flock instalou quase 100 mil câmeras pelos Estados Unidos para rastrear cada movimento seu [...] Parem a vigilância em massa por IA. Parem a Flock." — senador independente Bernie Sanders, em publicação nas redes sociais.

A reação uniu espectros opostos: um grupo de deputados republicanos, liderado por Tim Burchett, apresentou projeto de lei proibindo o governo federal de comprar câmeras da Flock ou tecnologia equivalente.

Jake Johnson, candidato democrata à Câmara por Minnesota, resumiu ao Axios a conexão com os data centers: "Em todo lugar que vou, recebo perguntas sobre data centers. Então, o fato de essas duas coisas estarem potencialmente ligadas, eu acho que realmente incomoda muito as pessoas".

Investigação formal e cancelamento de contratos

A escala do sistema já provocou consequências concretas. Mais de 50 cidades e condados cancelaram ou desativaram contratos com câmeras de leitura de placas neste ano, segundo o Politico. O senador republicano Josh Hawley abriu investigação formal sobre coleta, retenção e disseminação de dados pela empresa.

Governadores de partidos opostos também reagiram: o democrata Josh Shapiro, da Pensilvânia, e o republicano Ron DeSantis, da Flórida, pediram mais restrições ao uso das câmeras em seus estados. Segundo o TechCrunch, parte dos moradores teme que os dados sejam usados por autoridades de imigração para localizar e deportar pessoas.

Atenção: sistemas de vigilância em massa sem regras claras de retenção e acesso tendem a gerar reação política imprevisível. Para empresas de tecnologia que vendem para o setor público, transparência sobre arquitetura de dados deixou de ser diferencial e virou requisito de sobrevivência.

O que o caso americano diz sobre o muralha paulista no brasil?

O Brasil já opera um sistema com lógica semelhante, mas em trajetória oposta: em expansão e sem ataque público. O Muralha Paulista, programa do governo de São Paulo, integra 94 mil câmeras em mais de 600 municípios paulistas, incluindo 20 mil leitoras de placas e 7 mil equipamentos de reconhecimento facial.

As imagens são cruzadas em tempo real com o Banco Nacional de Mandados de Prisão, permitindo identificar automaticamente foragidos da Justiça, veículos roubados e pessoas desaparecidas. Qualquer cidadão ou empresa pode cadastrar câmeras particulares voltadas para vias públicas, ampliando a cobertura sem custo adicional ao governo.

Na avaliação do Mercado de TI, o contraste entre os dois países é o ponto mais relevante do episódio: nos EUA, a ausência de consenso sobre limites de uso dos dados transformou a infraestrutura em passivo político. A questão que fica para o Brasil é se o debate sobre governança e soberania sobre sistemas de IA chegará antes ou depois de uma crise semelhante, especialmente à luz da LGPD.

O caso também se conecta à discussão mais ampla sobre adoção de IA confiável em sistemas críticos e à polêmica sobre como agentes autônomos lidam com identidade, tema já explorado pelo portal na análise sobre segurança e identidade em sistemas autônomos.

Principais pontos

  • Escala: a Flock Safety opera mais de 120 mil câmeras em 49 estados e 6 mil cidades americanas, com avaliação de US$ 7,5 bilhões.
  • Resultados alegados: mais de 1 milhão de investigações apoiadas em 2025 e quase 10 mil pessoas desaparecidas localizadas.
  • Reação: mais de 50 cidades e condados cancelaram contratos, e o senador Josh Hawley abriu investigação formal.
  • Política: críticas bipartidárias, de Bernie Sanders ao deputado republicano Tim Burchett, marcaram as eleições de 2026.
  • Brasil: o Muralha Paulista reúne 94 mil câmeras em mais de 600 municípios e segue em expansão.

O desfecho americano ainda está aberto: dependendo do resultado da investigação de Hawley e dos projetos de lei em tramitação, o modelo de vigilância em nuvem pode ganhar marcos regulatórios inéditos. Para quem acompanha o mercado de tecnologia, o caso Flock Safety é o maior teste público até agora sobre onde termina a segurança pública e começa a vigilância em massa.

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· Editor-chefe

Especialista em tecnologia, criador de conteúdo e fundador do portal Mercado de TI e Casa do Dev. Analiso tendências de mercado, Inteligência Artificial e carreira, entregando informações precisas, tr...

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