A Península Ibérica pode se tornar um polo distribuído de data centers de IA, combinando energia renovável, terreno e conectividade: é o que apontam executivos da Nvidia e da MERLIN Properties na Atlantic Convergence 2026, em Lisboa.
Por que a Península Ibérica atrai data centers de IA
Data centers de IA são instalações de alta densidade projetadas para treinar e executar modelos de inteligência artificial, com demanda crescente por energia e conectividade de baixa latência. O crescimento do uso de sistemas de inferência e de agentes de IA, alertou Rod Evans na conferência, muda onde esses centros são construídos e como podem ser distribuídos.
Segundo o vice-presidente da Nvidia, a combinação de energia renovável disponível, posição nas redes de conectividade que ligam a Europa a outros mercados e oferta de terreno torna Portugal e Espanha particularmente interessantes. Essa diversidade geográfica permitiria funcionar como uma capital digital distribuída, com a latência baixa exigida por aplicações de IA.
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Ismael Clemente reforçou o argumento com foco econômico. Com a IA, a disponibilidade de energia ganha peso cada vez maior na escolha de onde construir. “Quem não tiver capacidade para computar, não terá capacidade para competir”, defendeu o CEO da MERLIN Properties.
Mas o que explica a corrida das regiões por essa infraestrutura? A resposta passa pela geografia dos próprios modelos de IA: conforme inferência e agentes se popularizam, a computação deixa de se concentrar em poucos polos e se distribui, favorecendo locais com energia barata e conexão internacional.
Como Portugal e Espanha se preparam de formas diferentes
A candidatura conjunta de Portugal e Espanha a uma das sete gigafábricas de IA previstas pela Comissão Europeia é o centro da estratégia ibérica. Em entrevista ao TEK Notícias, à margem da conferência, Ismael Clemente classificou a parceria como uma “união muito racional e muito conveniente para os dois países”, já que a própria União Europeia incentiva a integração entre candidaturas.
O objetivo, segundo o executivo, é criar capacidade de computação capaz de servir um mercado muito maior do que o ibérico, posicionando a região internacionalmente.
Portugal: criou um plano nacional de data centers, classificou essas infraestruturas como ativos de interesse estratégico e instituiu as Zonas de Grande Procura, que disponibilizam eletricidade para centros de dados, e as Zonas de Aceleração de Energias Renováveis, para fornecer energia limpa a essas instalações.
Espanha: apresentou o PlanoIA360, estratégia que destaca a futura gigafábrica e o desenvolvimento de data centers, além de incentivo à adoção de IA pelas empresas, formação de profissionais e novo modelo de governança.
Ponto de atrito: segundo Clemente, na legislação espanhola a indústria ainda tem prioridade sobre os centros de dados no acesso à eletricidade.
Data centers como indústria, não só consumidores de energia
Para Ismael Clemente, os centros de dados devem ser vistos como uma indústria capaz de gerar atividade econômica, receitas fiscais e novas oportunidades para empresas que se instalam nas proximidades, e não apenas como consumidores de eletricidade. Ele chegou a afirmar que “um centro de dados que presta capacidade de computação aos Estados Unidos representa, na realidade, uma exportação do ponto de vista das contas nacionais”.
O executivo criticou o ritmo da administração pública espanhola. “Ainda não compreenderam o que um centro de dados pode trazer para o PIB espanhol, nem como promover o seu desenvolvimento com energia renovável, evitando impactos nas tarifas de eletricidade”, afirmou.
“No caso de Portugal e Espanha, isto poderia ser, em certa medida, a Meca dos centros de dados, se assim o quiséssemos”, defendeu Ismael Clemente, CEO da MERLIN Properties.
Por que isso importa para o profissional de tecnologia? Na avaliação do Mercado de TI, a disputa por capacidade de computação na Iberia é um termômetro do que acontece globalmente: regiões com energia renovável e conectividade tendem a atrair investimento, empresas e vagas, algo que também se reflete em debates sobre os novos rumos da IA e da infraestrutura no Brasil.
Europa corre contra o atraso em capacidade de computação
Ismael Clemente avaliou que a Europa ainda está numa fase inicial da construção da infraestrutura necessária para acompanhar a expansão da IA e terá de acelerar o investimento para reduzir a dependência de capacidade instalada em outros mercados, como os Estados Unidos.
“Se disser às pessoas para se digitalizarem e utilizarem mais IA, é preciso ter a infraestrutura física de suporte, caso contrário será necessário importar essa capacidade de outros países e ficaremos sempre menos soberanos se dependermos dessa importação”, afirmou o executivo. O tema dialoga com o que profissionais de infraestrutura precisam dominar em projetos de IA.
Info: a União Europeia abriu concurso para a criação de sete gigafábricas de IA, e Portugal disputa uma delas em parceria com a Espanha, segundo o anúncio da Comissão Europeia.
Atenção: apesar do otimismo, os fatos apresentados são avaliações de executivos do setor imobiliário e de chips, empresas com interesse comercial direto na expansão de data centers. A consolidação da Península Ibérica como polo de IA depende de aprovação da candidatura, investimentos e mudanças regulatórias ainda pendentes.
O movimento indica que a geografia da computação está em redefinição, e a capacidade de atrair data centers virou peça de estratégia econômica nacional. Para empresas e profissionais que atuam com agentes de IA e automação, acompanhar onde a infraestrutura física se instala ajuda a antecipar custos, latência e oportunidades de mercado nos próximos anos.
Fonte: Sapo Tek