A Anthropic anunciou que o Claude analisou mais de 200 mil transcriptases reversas em cerca de 21 horas e identificou o ART, um sistema genético encontrado em bacteriófagos que a empresa apresenta como possível nova ferramenta biológica. O trabalho usou aproximadamente 210 milhões de tokens e envolveu cerca de 950 agentes do modelo. A descoberta, porém, enfrenta contestação: o biólogo computacional Mario Rodríguez Mestre afirma estudar essas mesmas enzimas há quatro anos, segundo o The New York Times.
A operação aconteceu dentro de um grupo de pesquisa em ciências da vida que a Anthropic criou na primavera de 2026, com laboratório próprio na Califórnia. A proposta é usar o Claude para examinar grandes volumes de sequências de DNA, encontrar padrões incomuns, formular hipóteses e indicar aos pesquisadores quais candidatos valem mesa de laboratório.
O que é o art identificado pelo Claude
O ART, sigla para "array-associated reverse transcriptases", é um sistema genético identificado em bacteriófagos: vírus que infectam bactérias. Ele tem três componentes principais: uma transcriptase reversa (RT), um gene associado e uma longa sequência de repetições de DNA regularmente espaçadas.
Transcriptase reversa é uma enzima que funciona, de forma simplificada, como uma copiadora molecular: usa uma molécula de RNA, que transporta informação genética, como molde para produzir DNA.
O que chamou a atenção do Claude não foi a enzima em si, já conhecida pela ciência, mas a combinação ao redor dela: o gene vizinho e a estrutura repetitiva. O padrão apresenta semelhanças com as sequências repetitivas do CRISPR, sistema natural de defesa de bactérias contra vírus que deu origem a uma das ferramentas mais importantes da edição genética.
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O histórico do CRISPR explica por que a comparação importa. As repetições começaram como uma anomalia aparentemente estranha no DNA bacteriano e só depois se revelaram parte de um mecanismo que permite às células reconhecer e combater material genético invasor. No caso do ART, as primeiras experiências indicam que as sequências repetitivas são transcritas em pequenas moléculas de RNA distintas, o que levanta a possibilidade de um papel funcional. A função exata ainda está sob investigação.
Como os agentes Claude chegaram ao candidato
O funil de análise começou com mais de 200 mil transcriptases reversas, reduzidas a 3.500 sistemas potencialmente interessantes e depois a 20 candidatos mais promissores. O ART emergiu como o caso que justificava experiências laboratoriais. Mas o que isso significa em termos de produtividade científica?
Segundo a Anthropic, um pesquisador especializado levaria semanas ou meses para executar essa triagem. O Claude concluiu a pesquisa computacional em cerca de 21 horas, com aproximadamente 210 milhões de tokens. A dinâmica lembra o que já se observa em outros usos de agentes de IA como segundo cérebro organizacional: a máquina explora o espaço de possibilidades, o humano valida.
A empresa deixa claro que a IA não fez uma descoberta científica sem intervenção humana. Os pesquisadores definiram a tarefa, supervisionaram o processo e conduziram todas as experiências de laboratório. A novidade está na capacidade de percorrer um espaço gigantesco de possibilidades, reconhecer uma anomalia e transformá-la em hipótese testável.
Info: a triagem do ART consumiu cerca de 210 milhões de tokens em 21 horas de computação, segundo a Anthropic, com participação de aproximadamente 950 agentes Claude.
Pesquisadores questionam a originalidade da descoberta
A Anthropic apresentou o caso como exemplo de um sistema de IA capaz de dar os primeiros passos de uma descoberta biológica por conta própria. Essa tese de descoberta independente é o ponto contestado por quem já pesquisava o tema.
Conforme o The New York Times, Mario Rodríguez Mestre, biólogo computacional, afirma que ele e os colegas estudam essas mesmas enzimas há cerca de quatro anos. A equipe usava modelos da Anthropic há vários anos e, durante conversas com o Claude, Mestre compartilhou um rascunho da própria dissertação e outras informações sobre o trabalho em andamento. O pesquisador admite não ter provas de que a Anthropic usou diretamente seu material para encontrar os ARTs, mas considera difícil ignorar as semelhanças entre os resultados da empresa e análises que sua equipe já havia realizado.
A Anthropic rejeita a possibilidade. Em comunicado citado pelo jornal norte-americano, a empresa afirmou não ter conhecimento de trabalhos publicados anteriormente que descrevessem o sistema ART que encontrou. A tecnológica garante ainda que o Claude não foi treinado com transcrições de conversas de usuários e que sua equipe de biologia molecular não tem acesso a esse tipo de informação.
Atenção: a discussão expõe um ponto sensível da governança de IA: se um modelo registra conversas com pesquisadores, quem garante que insights não migrem para publicações da própria fornecedora? O tema ganha peso à medida que labs de IA entram em pesquisa científica aplicada.
Na avaliação do Mercado de TI, o episódio tende a virar referência em debates sobre autoria científica assistida por IA, independentemente do desfecho. Casos semelhantes já mostram que o gargalo da IA nas empresas costuma estar nos dados e no processo, não nos modelos. Aqui, a questão é inversa: o modelo entregou resultado relevante, mas a cadeia de proveniência do conhecimento ficou sob suspeita.
O que observar a partir de agora
A função exata do ART segue em investigação, e será a validação em laboratório que definirá se o sistema pode virar ferramenta biológica como o CRISPR virou. Em paralelo, a postura da Anthropic sobre uso de dados de conversas pode influenciar como pesquisadores decidem compartilhar rascunhos com modelos de inteligência artificial generativa.
Dica: quem usa modelos de IA em pesquisa sensível deve revisar os termos de uso e as políticas de retenção de dados da fornecedora antes de compartilhar material não publicado, como teses e rascunhos em andamento.
Para quem acompanha o mercado, a movimentação confirma a entrada das empresas de IA em pesquisa de fronteira científica e sinaliza que a disputa por autoria, dados de treinamento e privacidade em IA vai muito além do software. O próximo marco a observar é a validação experimental do ART e a resposta formal da comunidade científica ao caso Mestre.
Fonte: Sapo Tek