A internet quântica é uma infraestrutura de comunicação de próxima geração capaz de permitir transmissões de dados mais seguras, sistemas de detecção distribuída de alta precisão e novas formas de computação quântica em rede. A Europa quer assumir a liderança dessa corrida e já prepara o Quantum Act, proposta legislativa que a Comissão Europeia deve apresentar ainda este ano, segundo Laurent Olislager, responsável pelas políticas de tecnologias quânticas em Bruxelas.
O anúncio ocorreu na conferência Building the Quantum Internet in Europe, organizada pela Quantum Internet Alliance (QIA) e pelo Portuguese Quantum Institute (PQI). Embora a tecnologia ainda esteja em fase inicial, os primeiros passos já foram dados, e o debate agora se concentra em como transformar pesquisa em aplicações e infraestruturas reais.
Por que a excelência científica não basta para liderar a internet quântica
Helena Canhão, secretária de Estado da Ciência e Inovação de Portugal, abriu o evento com um recado direto: nas tecnologias quânticas, "a excelência científica por si só não é suficiente". Segundo ela, a Europa precisa criar condições para o desenvolvimento tecnológico, testar soluções em contexto real, formar competências e promover crescimento industrial.
O ponto é prático: de que adianta publicar papers de ponta se a capacidade de produzir chips, redes e aplicações fica fora do continente? Para Canhão, os instrumentos de financiamento devem apoiar não só a pesquisa fundamental, mas também infraestruturas, demonstrações, projetos-piloto e capacidades industriais que convertam avanços científicos em valor econômico e social.
O futuro programa Horizonte Europa e o novo fundo europeu para a competitividade terão papel central nessa definição. A vale lembrar: a Comissão Europeia aprovou a Estratégia Quântica do bloco, com iniciativas para garantir a liderança do setor até 2030, dinamizando investimento em chips, competências e pesquisa.
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Info: o Quantum Act se enquadra na estratégia quântica apresentada pela Comissão Europeia em julho do ano passado e deve ser apresentado ainda este ano, segundo Laurent Olislager.
O que o quantum act pretende resolver na prática
A proposta europeia gira em torno de três grandes objetivos, conforme detalhou Laurent Olislager na conferência: impulsionar a pesquisa e a inovação, reforçar a capacidade industrial e melhorar a resiliência e a gestão das cadeias de fornecimento.
Aqui surge uma pergunta inevitável: mais regulação não pode sufocar um setor que ainda engatinha? Diego R. Lopez, Senior Technology Expert da operadora espanhola Telefónica, alertou exatamente para isso: uma regulação excessiva pode limitar a inovação num segmento em fase inicial de desenvolvimento.
Quantum Act é a futura proposta legislativa da Comissão Europeia para o setor quântico, desenhada para identificar e cobrir lacunas regulatórias sem duplicar regras já existentes, criando um enquadramento coordenado em toda a Europa.
Olislager reconhece o dilema e afirma que a Comissão Europeia busca o equilíbrio: o Quantum Act não deve duplicar regras vigentes, mas identificar e colmatar lacunas, permitindo desenvolver o setor de forma mais coordenada no bloco. Na avaliação do Mercado de TI, essa abordagem de "completar lacunas" em vez de criar um novo arcabouço do zero é o caminho mais realista para tecnologias em estágio embrionário, como também ocorre no debate sobre regras de cibersegurança como CSA2 e NIS2 na Europa.
| Pilar do Quantum Act | Foco declarado |
|---|---|
| Pesquisa e inovação | Impulsionar avanços científicos e sua aplicação |
| Capacidade industrial | Criar produção e competências no bloco |
| Cadeias de fornecimento | Melhorar resiliência e gestão de suprimentos |
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IA concorre pelo mesmo financiamento, alertam dirigentes
A disputa por recursos é outro ponto sensível. Num contexto em que a inteligência artificial concentra parte significativa da atenção e do financiamento destinado às tecnologias emergentes, João Nuno Ferreira, vice-presidente da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), defendeu a definição clara de prioridades.
O argumento dele é direto: se demasiadas tecnologias forem consideradas estratégicas, fica mais difícil concentrar recursos nas áreas em que a Europa quer ganhar capacidade real. Ferreira também apontou a complexidade e a fragmentação dos atuais instrumentos de financiamento comunitários.
Olislager admite que a IA deve absorver parcela relevante dos recursos destinados às tecnologias estratégicas, mas considera que as tecnologias quânticas não devem perder espaço nas prioridades europeias. O Brasil vive debate semelhante, como mostram as discussões sobre soberania digital e novos rumos para IA e infraestrutura e a parceria entre Brasil e União Europeia em inovação e IA.
Dica: para quem acompanha política de tecnologia, vale monitorar o desenho final do Horizonte Europa e do fundo europeu de competitividade: eles definirão quanto dinheiro fluirá para projetos quânticos nos próximos anos.
Timing do financiamento importa tanto quanto o valor
Para Stephanie Wehner, diretora da Quantum Internet Alliance, a discussão sobre financiamento deve ir além do montante disponível. Segundo ela, a Europa tem condições de assumir a liderança nas tecnologias quânticas e já existem projetos com resultados iniciais promissores, mas é igualmente importante garantir que o dinheiro chegue no momento certo.
Essa questão de timing é crítica em setores de fronteira: financiamento tardio quebra cadeias de pesquisa e empurra talentos para outras geografias. O movimento europeu indica uma tentativa de não repetir o atraso visto em semicondutores e cloud, áreas em que o bloco hoje depende de fornecedores externos.
O desafio agora é traduzir a ambição em contratos, pilotos e infraestrutura antes que a janela de liderança se feche. Vale acompanhar a apresentação formal do Quantum Act e a negociação do próximo orçamento plurianual do bloco.
Fonte: Sapo Tek