Ações de fabricantes chinesas de equipamentos de telecomunicações despencaram até 10% nesta semana após legisladores norte-americanos apresentarem o Communications and Technology Transparency Act, projeto que amplia a lista de tecnologias vetadas pela FCC para qualquer 'tecnologia ou serviço de informação e comunicações'.
O que é o communications and technology transparency act?
O Communications and Technology Transparency Act é o projeto bipartidário apresentado pelo republicano Brett Guthrie e pelo democrata Frank Pallone, da Comissão de Energia e Comércio da Câmara dos Representantes dos EUA. O texto alarga a Covered List da FCC, o registo de tecnologia considerada risco para a segurança nacional, que deixaria de se limitar a 'equipamentos ou serviços de comunicações' para abranger qualquer 'tecnologia ou serviço de informação e comunicações'.
Qualquer produto que conste dessa lista não pode ser legalmente importado, comercializado ou vendido como novo nos Estados Unidos. O projeto simplifica o processo de inclusão e obriga atualização da lista no mínimo a cada seis meses, em vez do critério atual de 'periodicamente'.
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Desde 2021 figuram nessa lista empresas como Huawei, ZTE, Hikvision, Dahua e Hytera. Entre as categorias de produtos visadas estão routers, drones e robots chineses.
Segundo Dai Menghao, advogado da King & Wood especializado em controlos de exportação, o projeto visa tornar a aplicação da lista mais sistemática e dirigida. Ele nota que o momento do lançamento, a poucas semanas das eleições intercalares de novembro, tem significado simbólico. Ambos os textos precisam ainda de aprovação do Congresso.
Como o mercado chinês reagiu à proposta?
As fabricantes mais visadas recuaram forte na bolsa: Hengtong Optic-Electric e Fiberhome caíram cerca de 10%, a Accelink perdeu 9,9%, a Ruijie Networks e a T&S Communications caíram 8,5% e a ZTE cedeu 3,5%. No mesmo dia, o CSI 300, principal índice do mercado de ações da China continental, desceu cerca de 2%.
Mas por que transceivers ópticos entraram na mira dos legisladores? Esses módulos, que convertem sinais elétricos em ópticos, são componentes essenciais em centros de dados. Em agosto, a agência Reuters já tinha noticiado que Washington ponderava bloquear novos modelos chineses. Só este mês a FCC fechou a atualização das regras de autorização de equipamentos, apertando restrições a dispositivos com componentes de entidades da lista, sem visar os transceivers, o que acalmou os mercados.
A nova definição, que abrange tecnologias fotónicas, pode voltar a colocá-los na lista, embora nem todos os produtos chineses fiquem automaticamente abrangidos. Pelo bloqueio automático, o fornecedor precisa ser controlado por um 'adversário estrangeiro', categoria que inclui China, Rússia, Irão e Coreia do Norte.
Proposta no senado mira eoptolink e zhongji innolight
Quatro senadores apresentaram uma proposta para proibir transceivers ópticos chineses nos sistemas de segurança nacional mais sensíveis do governo federal. Segundo a Reuters, os alvos são a Eoptolink, que caiu em bolsa mais de 8%, e a Zhongji Innolight, que recuou cerca de 12%.
A dependência global é significativa: segundo a Counterpoint Research, os fabricantes chineses fornecem cerca de dois terços desses módulos no mundo. Os rivais norte-americanos demorariam entre 12 e 24 meses para compensar essa capacidade, o que explica a sensibilidade do setor de data centers ao tema.
As propostas surgem durante a visita de Estado de Xi Jinping a Washington, que terminou na sexta-feira com poucos resultados concretos, além do prolongamento por dois meses da atual trégua comercial em vigor.
Na avaliação do Mercado de TI, o movimento indica que a disputa tecnológica entre EUA e China migra do hardware de rede visível para componentes de infraestrutura de dados, o que pode pressionar custos de cloud e acelerar a diversificação de fornecedores por empresas que operam no ecossistema global. Esse cenário reforça a importância de práticas sólidas de gestão de risco de fornecedores com sistemas contínuos por parte das equipes de TI.
Lenovo entra em litígio de patentes com a netlist
Apesar do timing, a Lenovo foi apanhada num processo que, à partida, nada tem a ver com a disputa geopolítica. A Comissão de Comércio Internacional dos EUA (ITC) abriu uma investigação ao abrigo da secção 337, relacionada com módulos de memória DDR5 e aos produtos que os incorporam.
A queixa foi apresentada em agosto pela Netlist, empresa californiana de memória, contra Micron, HPE, Supermicro e Lenovo, por alegada violação de quatro patentes ligadas a módulos DDR5 RDIMM e MRDIMM, usados em centros de dados e computação de alto desempenho. A Micron, que fornece a memória, é o alvo principal; as outras três são visadas como fabricantes de servidores que usam esses módulos.
A Netlist pede uma ordem de exclusão, que travaria a importação dos produtos em causa, e ordens de cessação, que impediriam a venda de stock já importado. Se a ITC concordar, as ordens tornam-se definitivas 60 dias depois, salvo veto do representante comercial dos EUA, e esse tipo de investigação costuma demorar aproximadamente 15 meses.
O caso é o capítulo mais recente de uma ofensiva da Netlist. Em agosto, a empresa fechou acordo com a Samsung, que ganhou acesso ao seu portefólio de patentes, e cerca de uma semana depois avançou contra a Micron.
Antes disso, um júri do Texas já tinha condenado a Micron a pagar 445 milhões de dólares, valor que a fabricante continua a contestar. Em setembro, o Federal Circuit confirmou a invalidação de várias patentes da Netlist, embora a empresa sustente que a decisão não anula a indemnização.
Para gestores brasileiros, o desfecho importa: servidores de marcas globais alimentam data centers no Brasil, e qualquer ordem de exclusão pode afetar disponibilidade e preço. O tema conecta-se à agenda local, como o esforço de produção de chips no Brasil em parceria entre Ceitec e China.
| Empresa | Impacto em bolsa | Motivo |
|---|---|---|
| Hengtong Optic-Electric | -10% | Restrições a tecnologia chinesa de telecom |
| Fiberhome | -10% | Covered List ampliada pela FCC |
| Accelink | -9,9% | Fabricação de transceivers ópticos |
| Zhongji Innolight | -12% | Alvo de proposta no Senado dos EUA |
| ZTE | -3,5% | Na lista da FCC desde 2021 |
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O desafio agora é acompanhar a tramitação das duas frentes no Congresso norte-americano e o prazo de dois meses da trégua comercial, que deve ditar o ritmo das próximas restrições sobre a cadeia de suprimentos de telecomunicações.
Fonte: Sapo Tek