A Shopify anunciou que está abandonando o React Native para reescrever seus aplicativos principais em Swift e Kotlin, revertendo uma aposta feita em 2020 e reafirmada em 2025.
O que a shopify anunciou e o que mudou na decisão
A Shopify anunciou que está abandonando o React Native para reescrever seus aplicativos principais em Swift e Kotlin, as linguagens nativas de iOS e Android.
Segundo o anúncio feito pela empresa em seu blog de engenharia, o head de mobile da companhia, Mustafa Ali, reavaliou o compromisso com o framework e concluiu que a relação custo-benefício de manter bases de código nativas passou a ser superior à de manter uma camada de abstração.
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A virada é relevante porque a Shopify foi uma das maiores defensoras do React Native no mercado corporativo.
Em 2020, a empresa declarou que o React Native era o futuro de sua arquitetura mobile e, em 2025, reafirmou o compromisso ao celebrar uma migração de cinco anos que levou todos os seus apps ao framework.
Os argumentos originais eram três: parar de construir o mesmo recurso duas vezes, portabilidade de talentos e dedicar mais tempo a entregar valor ao usuário em vez de perseguir paridade entre plataformas.
Na época da migração, a Shopify reportou apps com telas carregando em menos de 500 milissegundos e mais de 99,9% de sessões sem crash, além de citar recursos como hot reloading e TypeScript como impulsionadores de produtividade.
Mesmo assim, a empresa já reconhecia limites: código nativo continuava sendo a melhor opção para recursos de hardware, como escaneamento 2D e 3D e modelos de IA on-device, widgets de tela inicial e de bloqueio, apps para Apple Watch, complicações, App Intents, atalhos da Siri e tarefas longas em segundo plano.
Info: a recomendação da Shopify em 2020 era 'nativo e React Native', não 'nativo ou React Native'. A empresa já mantinha módulos nativos para funcionalidades ligadas a hardware e processos em segundo plano.
Por que a IA pesou na decisão da shopify
Dois fatores motivaram a reversão, segundo a Shopify. O primeiro foi a iminente refatoração exigida para adotar a nova arquitetura do React Native, que obrigaria a empresa a revisar integrações de módulos nativos, renderização e as fronteiras entre código compartilhado e código específico de plataforma. O esforço abriu espaço para uma análise mais ampla das opções de engenharia.
O segundo fator foi a evolução acelerada dos modelos de IA de codificação, agentes e harnesses de execução. Após uma prova de conceito conduzida por um único engenheiro em uma semana, uma equipe de seis engenheiros reconstruiu o app Shop do zero até a produção em 12 semanas, o que reforçou a opção por uma reescrita limpa em vez de uma migração incremental.
A equipe optou por padronizar em frameworks declarativos modernos: SwiftUI, da Apple, e Jetpack Compose, do Google. As simetrias estruturais e de modelo mental entre as duas plataformas permitiram guiar agentes autônomos e, ao mesmo tempo, respeitar os idiomas nativos de cada sistema. Esse ponto é central para quem trabalha com desenvolvimento mobile baseado em agentes.
Como a IA consegue reescrever milhares de telas sem gerar retrabalho? A resposta está em um detalhe de arquitetura descrito pela Shopify: a empresa isolou os fatores de mudança (plataforma mobile e interface) da lógica de negócio central e do gerenciamento de estado.
Com isso, os modelos de IA despacham ações, manipulam o estado de navegação e validam resultados em milissegundos, no desktop, sem renderizar UI nem usar simulador. Os simuladores ficaram reservados para testes de integração de ponta a ponta.
Resultados da migração do app shop
A reescrita do app Shop trouxe ganhos mensuráveis de desempenho e estabilidade, segundo os dados divulgados pela Shopify. A latência de inicialização a frio caiu 23% no iOS e 50% no Android, enquanto a estabilidade de sessão subiu de 99,5% para 99,95%, o que representa uma redução de dez vezes nas sessões com crash.
No Android, os tempos de build de release ficaram 75% mais rápidos e a rolagem do feed nativo sustentou 120 quadros por segundo sem exigir otimização manual extensa. Na avaliação do Mercado de TI, o dado mais sensível para equipes de produto é o ganho de estabilidade: menos crashes tendem a melhorar retenção e notas nas lojas de apps, métricas que pesam direto na receita de apps de comércio.
Dica: antes de comparar números de performance com seus próprios apps, note que a Shopify mediu os resultados contra a arquitetura antiga do React Native, não contra a New Architecture. Trate os percentuais como referência de caso, não como benchmark universal.
A empresa planeja concluir a migração dos apps Point of Sale e Inbox ao longo do próximo ano. O app Shopify, com mais de 300 telas, widgets de tela inicial e de bloqueio, app para Apple Watch e atalhos da Siri, deve ser finalizado ainda neste ano.
O que a comunidade questionou e o que muda para desenvolvedores
O anúncio gerou debate intenso na comunidade de desenvolvimento mobile. Um dos argumentos levantados no Reddit é que os resultados de performance e produtividade reportados pela Shopify foram medidos contra a arquitetura antiga do React Native, o que deixa em aberta a possibilidade de que a migração para a nova arquitetura alcançasse resultados semelhantes ou melhores.
Outro trade-off citado por desenvolvedores no Hacker News é a dificuldade de atualizações over-the-air em apps totalmente nativos. Publicar uma nova versão passa pelo processo de revisão das lojas, o que tende a reduzir a frequência de releases.
Um desenvolvedor questionou se esse argumento a favor do React Native não nasce de uma cultura web: no desenvolvimento nativo, cada release é mais difícil de reverter, então as equipes criam mais ferramental, testam mais e preferem uma versão maior e estável a cada poucas semanas.
"No nativo, você sabe que cada release é mais difícil de reverter, então você constrói mais ferramentas em torno das entregas, pensa nas mudanças com mais cuidado e testa mais a fundo. Você opta por um release maior e mais estável a cada poucas semanas. No fim, as duas abordagens funcionam", escreveu um desenvolvedor no Hacker News, resumindo o contraste de culturas.
Para profissionais brasileiros que trabalham com React Native e acompanham vagas como as de React Native developer sênior divulgadas no nosso quadro de oportunidades, o sinal prático é duplo. A stack cross-platform não desapareceu, mas o domínio de SwiftUI e Jetpack Compose ganha peso estratégico, especialmente em empresas que já testam agentes de IA para acelerar reescrita e manutenção de código nativo.
Atenção: a experiência da Shopify não é replicável de imediato pela maioria das equipes. A empresa tinha arquitetura madura, lógica de negócio isolada da UI e engenheiros dedicados a orquestrar agentes. Projetos sem essas condições tendem a encarar a reescrita nativa como risco, não como atalho.
| Métrica | Antes (React Native) | Depois (nativo) |
|---|---|---|
| Inicialização a frio no iOS | baseline | 23% mais rápida |
| Inicialização a frio no Android | baseline | 50% mais rápida |
| Estabilidade de sessão | 99,5% | 99,95% (10x menos crashes) |
| Tempo de build de release no Android | baseline | 75% mais rápido |
| Rolagem do feed no Android | não informado | 120 FPS sustentados sem otimização extensa |
Arraste para o lado para ver toda a tabela.
O movimento da Shopify indica que a fronteira entre nativo e cross-platform está sendo redesenhada pela capacidade da IA de absorver o custo de manter duas bases de código. Para times brasileiros, o próximo passo é avaliar se a arquitetura atual permite isolar lógica de estado da interface, condição que a própria Shopify apontou como decisiva para trabalhar com agentes.
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Fonte: Infoq