Shopify abandona React native e reescreve apps em Swift e Kotlin com ajuda de agentes de IA

7 min
Shopify abandona React native e reescreve apps em Swift e Kotlin com ajuda de agentes de IA

A Shopify anunciou a migração de seus apps principais de React Native para Swift e Kotlin, revertendo aposta feita em 2020. A melhora dos modelos de IA para codificação foi o fator decisivo: seis engenheiros reescreveram o app Shop em 12 semanas, com ganhos de 50% na inicialização no Android e redução de 10 vezes em sessões com crash.

A Shopify anunciou que está abandonando o React Native para reescrever seus aplicativos principais em Swift e Kotlin, revertendo uma aposta feita em 2020 e reafirmada em 2025.

O que a shopify anunciou e o que mudou na decisão

A Shopify anunciou que está abandonando o React Native para reescrever seus aplicativos principais em Swift e Kotlin, as linguagens nativas de iOS e Android.

Segundo o anúncio feito pela empresa em seu blog de engenharia, o head de mobile da companhia, Mustafa Ali, reavaliou o compromisso com o framework e concluiu que a relação custo-benefício de manter bases de código nativas passou a ser superior à de manter uma camada de abstração.

Leia também Web Summit Rio 2026 define datas e confirma palestrantes de peso no Riocentro

A virada é relevante porque a Shopify foi uma das maiores defensoras do React Native no mercado corporativo.

Em 2020, a empresa declarou que o React Native era o futuro de sua arquitetura mobile e, em 2025, reafirmou o compromisso ao celebrar uma migração de cinco anos que levou todos os seus apps ao framework.

Os argumentos originais eram três: parar de construir o mesmo recurso duas vezes, portabilidade de talentos e dedicar mais tempo a entregar valor ao usuário em vez de perseguir paridade entre plataformas.

Na época da migração, a Shopify reportou apps com telas carregando em menos de 500 milissegundos e mais de 99,9% de sessões sem crash, além de citar recursos como hot reloading e TypeScript como impulsionadores de produtividade.

Mesmo assim, a empresa já reconhecia limites: código nativo continuava sendo a melhor opção para recursos de hardware, como escaneamento 2D e 3D e modelos de IA on-device, widgets de tela inicial e de bloqueio, apps para Apple Watch, complicações, App Intents, atalhos da Siri e tarefas longas em segundo plano.

Info: a recomendação da Shopify em 2020 era 'nativo e React Native', não 'nativo ou React Native'. A empresa já mantinha módulos nativos para funcionalidades ligadas a hardware e processos em segundo plano.

Por que a IA pesou na decisão da shopify

Dois fatores motivaram a reversão, segundo a Shopify. O primeiro foi a iminente refatoração exigida para adotar a nova arquitetura do React Native, que obrigaria a empresa a revisar integrações de módulos nativos, renderização e as fronteiras entre código compartilhado e código específico de plataforma. O esforço abriu espaço para uma análise mais ampla das opções de engenharia.

O segundo fator foi a evolução acelerada dos modelos de IA de codificação, agentes e harnesses de execução. Após uma prova de conceito conduzida por um único engenheiro em uma semana, uma equipe de seis engenheiros reconstruiu o app Shop do zero até a produção em 12 semanas, o que reforçou a opção por uma reescrita limpa em vez de uma migração incremental.

A equipe optou por padronizar em frameworks declarativos modernos: SwiftUI, da Apple, e Jetpack Compose, do Google. As simetrias estruturais e de modelo mental entre as duas plataformas permitiram guiar agentes autônomos e, ao mesmo tempo, respeitar os idiomas nativos de cada sistema. Esse ponto é central para quem trabalha com desenvolvimento mobile baseado em agentes.

Como a IA consegue reescrever milhares de telas sem gerar retrabalho? A resposta está em um detalhe de arquitetura descrito pela Shopify: a empresa isolou os fatores de mudança (plataforma mobile e interface) da lógica de negócio central e do gerenciamento de estado.

Com isso, os modelos de IA despacham ações, manipulam o estado de navegação e validam resultados em milissegundos, no desktop, sem renderizar UI nem usar simulador. Os simuladores ficaram reservados para testes de integração de ponta a ponta.

Resultados da migração do app shop

A reescrita do app Shop trouxe ganhos mensuráveis de desempenho e estabilidade, segundo os dados divulgados pela Shopify. A latência de inicialização a frio caiu 23% no iOS e 50% no Android, enquanto a estabilidade de sessão subiu de 99,5% para 99,95%, o que representa uma redução de dez vezes nas sessões com crash.

No Android, os tempos de build de release ficaram 75% mais rápidos e a rolagem do feed nativo sustentou 120 quadros por segundo sem exigir otimização manual extensa. Na avaliação do Mercado de TI, o dado mais sensível para equipes de produto é o ganho de estabilidade: menos crashes tendem a melhorar retenção e notas nas lojas de apps, métricas que pesam direto na receita de apps de comércio.

Dica: antes de comparar números de performance com seus próprios apps, note que a Shopify mediu os resultados contra a arquitetura antiga do React Native, não contra a New Architecture. Trate os percentuais como referência de caso, não como benchmark universal.

A empresa planeja concluir a migração dos apps Point of Sale e Inbox ao longo do próximo ano. O app Shopify, com mais de 300 telas, widgets de tela inicial e de bloqueio, app para Apple Watch e atalhos da Siri, deve ser finalizado ainda neste ano.

O que a comunidade questionou e o que muda para desenvolvedores

O anúncio gerou debate intenso na comunidade de desenvolvimento mobile. Um dos argumentos levantados no Reddit é que os resultados de performance e produtividade reportados pela Shopify foram medidos contra a arquitetura antiga do React Native, o que deixa em aberta a possibilidade de que a migração para a nova arquitetura alcançasse resultados semelhantes ou melhores.

Outro trade-off citado por desenvolvedores no Hacker News é a dificuldade de atualizações over-the-air em apps totalmente nativos. Publicar uma nova versão passa pelo processo de revisão das lojas, o que tende a reduzir a frequência de releases.

Um desenvolvedor questionou se esse argumento a favor do React Native não nasce de uma cultura web: no desenvolvimento nativo, cada release é mais difícil de reverter, então as equipes criam mais ferramental, testam mais e preferem uma versão maior e estável a cada poucas semanas.

"No nativo, você sabe que cada release é mais difícil de reverter, então você constrói mais ferramentas em torno das entregas, pensa nas mudanças com mais cuidado e testa mais a fundo. Você opta por um release maior e mais estável a cada poucas semanas. No fim, as duas abordagens funcionam", escreveu um desenvolvedor no Hacker News, resumindo o contraste de culturas.

Para profissionais brasileiros que trabalham com React Native e acompanham vagas como as de React Native developer sênior divulgadas no nosso quadro de oportunidades, o sinal prático é duplo. A stack cross-platform não desapareceu, mas o domínio de SwiftUI e Jetpack Compose ganha peso estratégico, especialmente em empresas que já testam agentes de IA para acelerar reescrita e manutenção de código nativo.

Atenção: a experiência da Shopify não é replicável de imediato pela maioria das equipes. A empresa tinha arquitetura madura, lógica de negócio isolada da UI e engenheiros dedicados a orquestrar agentes. Projetos sem essas condições tendem a encarar a reescrita nativa como risco, não como atalho.

Resultados reportados pela Shopify na migração do app Shop de React Native para Swift e Kotlin
MétricaAntes (React Native)Depois (nativo)
Inicialização a frio no iOSbaseline23% mais rápida
Inicialização a frio no Androidbaseline50% mais rápida
Estabilidade de sessão99,5%99,95% (10x menos crashes)
Tempo de build de release no Androidbaseline75% mais rápido
Rolagem do feed no Androidnão informado120 FPS sustentados sem otimização extensa

Arraste para o lado para ver toda a tabela.

O movimento da Shopify indica que a fronteira entre nativo e cross-platform está sendo redesenhada pela capacidade da IA de absorver o custo de manter duas bases de código. Para times brasileiros, o próximo passo é avaliar se a arquitetura atual permite isolar lógica de estado da interface, condição que a própria Shopify apontou como decisiva para trabalhar com agentes.

Leia também:

Fonte: Infoq

D

· Editor-chefe

Especialista em tecnologia, criador de conteúdo e fundador do portal Mercado de TI e Casa do Dev. Analiso tendências de mercado, Inteligência Artificial e carreira, entregando informações precisas, tr...

LinkedIn Site

COMPARTILHAR