A regulação da Inteligência Artificial (IA) e das plataformas digitais não é mais apenas uma pauta técnica, mas um pilar estratégico da soberania nacional brasileira. Durante o 16º Fórum da Internet no Brasil (FIB 16), realizado em Belém (PA), especialistas, parlamentares e representantes do CGI.br convergiram na ideia de que o Brasil precisa transitar da posição de mero consumidor de tecnologia para a de construtor de soluções, equilibrando inovação com direitos fundamentais.
O debate sublinhou que a governança digital impacta diretamente a democracia, as relações de trabalho e a economia. Para os profissionais de TI, o cenário aponta para uma necessidade crescente de frameworks que garantam segurança jurídica, sem sufocar a inovação local. O foco agora, segundo Henrique Faulhaber, conselheiro do CGI.br, não é mais se devemos regular, mas como implementar uma regulação eficaz e tecnicamente robusta.
Soberania tecnológica como prioridade
Um dos pontos centrais discutidos pelos parlamentares presentes foi a dependência externa de sistemas automatizados. O deputado federal Jadyel Alencar, relator da lei do ECA Digital, defendeu que o país deve investir pesadamente em pesquisa, startups e infraestrutura própria. A regulação, portanto, surge como um instrumento para blindar o mercado nacional contra a concentração excessiva de poder das Big Techs, que, segundo o pesquisador Rafael Zanatta (Data Privacy Brasil), atuam cada vez mais com influência geopolítica própria.
A parlamentar Luizianne Lins reforçou que algoritmos não são neutros. A falta de transparência e os riscos de reprodução de vieses como o racismo algorítmico e a misoginia digital são desafios que exigem mecanismos de controle claros. Para o setor de tecnologia, isso significa que futuros sistemas deverão ser desenvolvidos sob diretrizes de ética e governança de dados cada vez mais rigorosas e auditáveis.
O papel da participação multissetorial
Renata Mielli, coordenadora do CGI.br e assessora especial do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, destacou que a velocidade dos ciclos de desenvolvimento tecnológico pressiona o Estado a entregar respostas ágeis. No entanto, ela alerta que projetos de lei sem aprofundamento técnico colocam em risco o ecossistema de inovação.
- Transparência algorítmica: Exigência de clareza sobre como sistemas de decisão tomam impactos na vida social.
- Segurança jurídica: Criação de diretrizes que permitam às empresas investir com previsibilidade.
- Fomento nacional: Alinhamento entre regulação e incentivos para universidades e o setor de startups.
- Proteção democrática: Mitigação de riscos sistêmicos e combate à desinformação como dever de Estado e setor privado.
O ecossistema brasileiro de TI enfrenta agora a tarefa de acompanhar esse amadurecimento legislativo. A expectativa é que o processo regulatório priorize não apenas a restrição, mas a criação de um ambiente onde a tecnologia brasileira possa prosperar, protegida por normas que reflitam a realidade socioeconômica do país e os direitos de seus cidadãos.